O CONSTRUTOR DE ECOSSISTEMAS

O empreendedor serial e investidor norte-americano fala sobre os negócios que criou, como a Latitud, e o ecossistema de inovação no Brasil e na América Latina

TEXTO RENNAN A. JULIO

2022-05-05T07:00:00.0000000Z

2022-05-05T07:00:00.0000000Z

Infoglobo Conumicacao e Participacoes S.A.

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ENTREVISTA

Empreendedor serial e investidor em mais de 140 startups, o americano Brian Requarth fez da América Latina seu lugar no mundo. “Passei 65% da minha vida adulta em países como Brasil, Colômbia e México. Minha filha é brasileira e estava enrolada na bandeira verde e amarela de manhã [no dia da entrevista]”, conta ele, que hoje vive na Califórnia. No Brasil, fundou o VivaReal, site de imóveis comprado pela OLX em 2020 por R$ 2,9 bilhões. Em seguida, escreveu o livro A Real Sobre Empreender. Depois de mentorar mais de 150 empresários durante a pandemia, criou, em 2021, a Latitud, um ecossistema para startups latino-americanas. Em março deste ano, o negócio levantou uma rodada de US$ 11,5 milhões para se transformar em um pool de soluções tecnológicas. A plataforma Latitud Go permite a abertura de empresas em um modelo offshore adaptado para receber aportes de fora do país, além de oferecer ferramentas como softwares de gestão. Para Requarth, nunca houve momento melhor para o empreendedorismo na região. “Os brasileiros são as melhores pessoas para construir empresas na América Latina, porque entendem o mercado melhor do que qualquer estrangeiro.” Por que você decidiu empreender mais uma vez, depois do VivaReal? Enquanto escrevia meu livro, tive tempo para pensar no que gostaria de fazer. Minha primeira percepção foi a de que empreender é difícil e solitário, mesmo com um impacto incrível na sociedade. Então, decidi que gostaria de fazer algo significativo, mesclando três elementos: o que eu amo, o que o mundo precisa e pelo que posso ser pago. Tive muitas ideias, cheguei até a pensar em construir algo em criptomoedas. Mas, no fim, escolhi criar algo com impacto para a próxima geração de empreendedores, algo que eu me visse fazendo nos próximos dez anos. Tive a sorte de encontrar duas pessoas complementares [Gina Gotthilf e Yuri Danilchenko], com experiências nos mercados de educação e tecnologia, que possibilitam que o negócio escale exponencialmente. O que você fez de diferente desta vez? O luxo de poder pensar a longo prazo, em questão de décadas, foi a principal diferença. Tenho muita sorte de dizer que sei o que é preciso para construir uma empresa, executar a operação e crescer de forma rápida. Ao mesmo tempo, posso pensar os passos com um horizonte de dez anos. Posso visualizar com calma o que o negócio pode se tornar. Quando alguém empreende pela primeira vez, não há recursos financeiros nem experiência. É apenas uma corrida frenética pela sobrevivência. Justamente por isso temos trabalhado para construir uma cultura de longo prazo para a Latitud. O que você busca com o novo negócio? Chegou a sua hora de fundar um unicórnio? Tornar-se um unicórnio não é a minha medida de sucesso. Acredito que o valor de verdade é uma consequência do valor criado pela empresa para os clientes. Quando o empreendedor fica obcecado em resolver esse problema, os resultados tendem a cuidar de si mesmos. Eu acho que é aceitável projetar um objetivo, mas, se a sua startup não gera impacto, se ela não se encontra em uma posição de construção de valor para os outros, ela intrinsecamente perde relevância. Por que investidores estão olhando tanto para a América Latina? A resposta é bem simples. Primeiro, é um mercado grande. É também dominado por incumbentes e empresas tradicionais, enraizadas por gerações na história desses países. Além disso, se você observar todos os setores da economia, encontrará índices incrivelmente baixos de satisfação dos clientes. Por fim, houve um ponto de inflexão na qualidade dos empreendedores e na disponibilidade para correr riscos, que mudaram completamente se comparadas a 15 anos atrás. Empreender não era um plano de carreira para as pessoas, mas algo feito por loucos. Em países como o Brasil, já surge uma segunda geração de empreendedores bem-sucedidos, mostrando para outras pessoas que há oportunidades. Não tenho nenhuma dúvida de que fecharemos os olhos e, nos próximos dez anos, teremos a economia da América Latina sendo dominada por empresas de tecnologia, assim como nos Estados Unidos e na China. Que diferenças você enxerga entre os países da região? Como o Brasil se posiciona em relação aos seus vizinhos? A principal diferença está no estágio de desenvolvimento de cada um. O Brasil se encontra à frente do resto da América Latina. Acabo de voltar de uma viagem ao México, onde passarei um ano, e me lembrei muito do mercado brasileiro em 2015. Muitos estrangeiros chegando para empreender por lá, assim como aconteceu no Brasil, que recebeu nomes como David Vélez, fundador do Nubank, e Sergio Furio, fundador da Creditas. Esse cenário já mudou muito. A maioria dos fundadores que estão recebendo investimento agora é formada por brasileiros. Afinal, eles são as melhores pessoas para construir empresas na América Latina, porque entendem o mercado melhor do que qualquer estrangeiro. Fora o Brasil, de forma geral, não vejo muitas diferenças. Onde estão as principais oportunidades para quem pensa em fundar uma startup? Todos os setores da economia serão afetados pela tecnologia, e ninguém está satisfeito com o ambiente atual desses mercados. Há muitas oportunidades em logtechs, healthtechs, foodtechs, proptechs, negócios B2B, soluções SaaS (software as a service). Até em fintechs, que gosto de descrever como a “droga de entrada” para investidores internacionais no Brasil e na América Latina. Eles entram por conta delas e ficam para investir em todo o resto. Nunca houve um momento melhor para ser um empreendedor. Há infinitos problemas a serem resolvidos. Sou muito otimista com o futuro. Vale já criar uma empresa brasileira pensando na internacionalização para essa região? É uma questão parecida com a dos Estados Unidos, onde o tamanho do mercado nacional é uma bênção e uma maldição. O mercado interno brasileiro é tão grande que muitos empreendedores deixam de pensar globalmente. Ao mesmo tempo, depende. Recentemente, investi em uma startup mexicana que opera em um mercado bilionário apenas atuando entre o México e os Estados Unidos. E o Brasil é uma economia grande o suficiente para negócios se apoiarem com operações apenas em cidades como São Paulo ou outras capitais. Mas há oportunidades de ampliar a capilaridade e aumentar a penetração olhando para fora do Brasil. Tudo vai depender do nicho de atuação, mas gosto de incentivar o brasileiro a pensar globalmente. Quais são as principais qualidades da nova geração de fundadores de startups? O calibre e o talento dos empreendedores brasileiros em 2022 são drasticamente maiores e melhores do que quando comecei. O nível de sofisticação, a compreensão da terminologia e a noção de como se constrói uma empresa de tecnologia são dez vezes melhores do que as dos fundadores que começaram em 2009. A ambição e a visão desses empresários também são muito maiores do que na primeira geração. Mas tudo isso só é possível porque pessoas como Paulo Veras, fundador da 99, e David Vélez, do Nubank, foram capazes de criar um caminho para outras. Eles mostraram ao empreendedor que é possível sonhar – e que é possível sonhar um pouco maior. Há desvantagens em navegar em uma maré alta? Qual cuidado o empreendedor deve tomar em um mercado em que sobra capital? Essa é uma pergunta importante e tenho uma resposta muito clara: não viveremos em um mundo de abundância para sempre. Os brasileiros sabem disso melhor do que ninguém, mas há altos e baixos. Se olharmos para o Brasil nos últimos 50 anos, houve uma melhora geral na qualidade de vida, mas isso não significa que foi tudo positivo. São ciclos. Empreendedores que fundaram seus negócios de 2019 para cá só viram o cenário favorável. E acho que eles podem ser menos prudentes com o dinheiro. Ao longo da minha jornada, vivi uma série de crises, então, aprendi a ter reservas suficientes para tocar meus negócios. Se você tem 25 anos, é engenheiro formado pela Universidade de São Paulo, trabalhou no Nubank e levantou US$ 2 milhões em uma rodada seed para tirar sua ideia do papel, você acha que o capital é abundante e pode não estar preparado para uma tormenta. Ela chega em algum momento. Não sabemos exatamente quando, mas chega. Ano de eleição, inflação alta e juros subindo, mas ainda assim um trimestre recorde de investimentos no Brasil. Você acredita que os números devem diminuir ou o clima é o mesmo dos dois anos anteriores? A vantagem de ser um empreendedor em sua segunda jornada é que tenho o privilégio de não me preocupar com o cenário macro no curto prazo. Se você está construindo soluções transformadoras que mudam economias e melhoram a vida de milhões de pessoas, não se preocupe com o mercado de ações nos próximos três meses. Existe a possibilidade de vermos uma desaceleração nas empresas em crescimento? Absolutamente. Mas se focarmos em um horizonte de cinco a dez anos, nada disso importa. O cuidado a ser tomado é não ficar sem dinheiro. Portanto, certifique-se de que está bem capitalizado e de que suas taxas de queima estão sob controle. Mas, mesmo assim, eu não estou preocupado com uma desaceleração de curto prazo. A quantidade de capital que foi levantada por investidores de venture capital foi grande, e eles certamente seguirão investindo nas empresas. As rodadas de séries C e D podem até diminuir, mas começarão a investir mais cedo nas séries A e B, com cheques maiores. Um investidor-anjo tirou o VivaReal da falência. Como vê essa situação hoje? É verdade. Era junho de 2011, tínhamos 25 pessoas na folha de pagamento, eu não tirava um salário havia nove meses e restava cerca de uma semana de capital para a empresa. Eu estava dependendo do dinheiro do meu colega de faculdade, do meu pai e da minha poupança. Até que um investidor-anjo, que foi de fato um anjo em nossa vida, assinou um cheque de US$ 300 mil. Naquela hora, senti que ele tinha mesmo salvado a minha empresa. Olhando para trás, vejo como um investidor pode impactar a nossa jornada. Me deu um senso de responsabilidade, de reinvestir na próxima geração. O primeiro cheque em uma empresa é tão significativo para o fundador porque representa mais do que dinheiro, mas um voto de fé. O papel do investidor mudou? Qual é a função dele agora? Eu acredito que os papéis do investidor-anjo e do investidor de risco são diferentes. O anjo tem de acreditar em algo que ainda não está pronto, o foco deve ser no apoio estratégico e emocional dos empreendedores. É oferecer a sua empatia, a sua escuta. Às vezes, o empresário não precisa de uma resposta, mas só de alguém falando que tudo vai ficar bem. A essa altura da minha história, eu já vivi tantas situações que nunca mais fiquei surpreso com a ligação de um empreendedor superpreocupado. Tenho calma para ser mais prestativo. Já o investidor de risco tem de saber sair do caminho do fundador, um erro que muitos venture capitalists inexperientes cometem. Dez anos atrás, os fundos colocavam dinheiro e diziam o que precisava ser feito. Mas essa não é mais a função de um VC. Ele precisa ser um facilitador, seja conectando um cliente em potencial, seja facilitando a contratação de um executivo mais experiente. Os melhores investidores servem à empresa, em vez do contrário. Como vê o mercado de real estate techs, que você dominou um dia, e hoje está nas mãos de empresas como Loft e QuintoAndar? É engraçado, porque sou um empresário meio estranho. O primeiro investimento que eu fiz fora do VivaReal foi no QuintoAndar, quando estávamos no topo do mercado imobiliário. E acabei investindo em mais 12 proptechs na América Latina. Quando conheci o Gabriel [Braga, fundador do QuintoAndar], eu percebi que não poderia ser dono de todo o universo de real estate. Era algo inevitável, que ia acontecer, e não adiantava eu não querer dividir a torta com eles. No fim, o QuintoAndar se tornou o nosso maior anunciante. Talvez outros empresários fossem mais protecionistas, mas por essas e outras acho que me tornei a pessoa certa para fundar a Latitud. Moro perto de uma área pesqueira e faço uma analogia com o balde de caranguejos. Sempre que um está perto de escapar do balde, outro caranguejo puxa ele pela garra e todos morrem abraçados. Não quero ser quem tira a oportunidade de um colega. Eu gosto de construir ecossistemas, não posso ser egoísta em tentar possuir tudo. É uma questão de aumentar o tamanho da oportunidade para outros empreendedores. Qual é a sua mensagem para quem está começando agora? Você não está sozinho. A incerteza do dia a dia, a tarefa assustadora de fechar a primeira contratação, de encontrar com seu investidor ou se sentar em uma reunião de conselho quando não sabe nada sobre finanças – essas são situações que todo empreendedor enfrenta em algum grau. E, coletivamente, se pudermos ajudar uns aos outros e apoiar o ecossistema, a maré alta vai levantar todos os barcos.

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