GI GAN TE

POR ANA LAURA STACHEWSKI, DE TALLINN* ILUSTRAÇÃO CACO NEVES

2022-07-28T07:00:00.0000000Z

2022-07-28T07:00:00.0000000Z

Infoglobo Conumicacao e Participacoes S.A.

http://revistapegn.pressreader.com/article/282531547151139

DATA BASE | PEQUENA GIGANTE

Localizada no nordeste da Europa, a Estônia é um país pouco maior do que o estado do Rio de Janeiro. Mas sua infraestrutura, com direito a um programa de residência digital, atrai empreendedores de todas as partes do mundo No início dos anos 2000, o dinamarquês Janus Friis e o sueco Niklas Zennström já eram nomes conhecidos no mercado de tecnologia. Foi junto de um time de programadores da Estônia que eles criaram o Kazaa, um compartilhador de arquivos que conquistou tanto usuários como controvérsias, por abrir espaço para o envio de documentos ilegais, como músicas pirateadas. Depois de vender a empresa, os dois iniciaram um projeto que ganharia proporções ainda maiores. Novamente, contaram com a ajuda de estonianos, alguns já do time anterior: Ahti Heinla, Priit Kasesalu, Jaan Tallinn e Toivo Annus. Em agosto de 2003, o grupo lançou uma plataforma que permitia fazer ligações para qualquer parte do mundo de graça, bastando uma conexão de internet. Tratava-se do Skyper, posteriormente rebatizado como Skype. No seu primeiro ano de operação, a plataforma conquistou quase 20 milhões de usuários. Em 2005, foi vendida por US$ 2,6 bilhões para o eBay – em 2011, a Microsoft a comprou por US$ 8,5 bilhões. A empresa hoje enfrenta a concorrência de outros serviços, como o Zoom, que registrou um crescimento meteórico durante a pandemia. Para os estonianos, porém, ela se tornou bem mais do que uma ferramenta. “Poucos sabem onde fica a Estônia, mas todos conhecem o Skype. Então, agora eu digo que sou o presidente do país onde o Skype está”, teria dito o então presidente Toomas Hendrik Ilves, que ocupou o cargo entre 2006 e 2016, durante uma visita ao escritório da empresa em Palo Alto, nos Estados Unidos, segundo registros publicados no site do Skype. Assim como é comum em outros países que viram surgir startups globais e valiosas, muitos ex-funcionários da empresa criaram, depois, seus próprios negócios. Os fundadores também se tornaram investidores, fomentando o mercado interno. E mesmo quem não teve contato direto com a companhia pôde enxergar nela um exemplo de caminho a seguir. Hoje, a Estônia tem cerca de 1,3 mil startups. Sete delas são unicórnios, avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão – há quem inclua outras três na lista, por terem estonianos entre os seus fundadores, mesmo não possuindo escritórios no país. Seguindo esse critério, o país acumula o maior número de unicórnios per capita da Europa, segundo um levantamento do Startup Estonia, hub do governo voltado ao setor. Entre empresários e estudiosos, uma coisa é consenso: o Skype foi peça fundamental para a ascensão do ecossistema local de inovação. Mas, claro, outros fatores entram para a conta. Da digitalização aos incentivos fiscais, várias características colaboram para que não apenas estonianos sejam estimulados a empreender no setor, mas também que empreendedores de outros países decidam tentar a sorte por lá – presencial ou remotamente, por um programa de residência digital. Como em todo caso, também há desafios. Nas páginas a seguir, mergulhamos na história e nas particularidades desse ecossistema – e contamos como brasileiros podem aproveitar algumas das suas oportunidades. UM PAÍS DIGITAL Antes que o Skype se tornasse um fenômeno bilionário, alguns acontecimentos foram determinantes para que a Estônia e seu mercado se tornassem o que são hoje. Localizado na região do Báltico, no nordeste da Europa, o país fez parte da União Soviética e só se tornou independente em 1991. A partir dali, teve o desafio de se (re)construir como nação, definindo os seus rumos nos anos seguintes. “Tivemos um governo com visão de mercado muito liberal a partir de 1992, com abertura a investimentos estrangeiros e um sistema simples de impostos”, diz Sven Illing, reitor de empreendedorismo da Universidade de Tecnologia de Tallinn. Ainda nos anos 1990, o país lançou o Tiger Leap Programme, que instalou computadores em escolas com o objetivo de ajustar o ensino às mudanças tecnológicas. “A próxima fase foi ensinar 100 mil pessoas a usar o aparelho. Não parece muito [em comparação com o Brasil], mas isso era quase 10% da população”, diz Illing. O estímulo à formação em tecnologia foi a base para um movimento que cresceria mais tarde: o recrutamento de desenvolvedores estonianos para empresas mundo afora. Um caso anterior ao do Skype é o da Playtech, que desenvolve softwares para sites de jogos de azar e foi fundada em 1999 pelo israelense Teddy Sagi em Tartu, a maior cidade da Estônia depois da capital, Tallinn. Conforme essas empresas cresceram, colaboraram também para injetar capital no mercado – e no bolso de potenciais empreendedores. O estoniano Taavet Hinrikus, primeiro funcionário do Skype, por exemplo, deixou a empresa para fundar a Wise (antiga Transferwise) em 2010, junto com Kristo Käärmann. Listada na Bolsa de Londres desde julho de 2021, a empresa estava avaliada em US$ 4,3 bilhões em 21 julho de 2022. A Starship Technologies, startup de robôs autônomos fundada em 2014 por Janus Friis e Ahti Heinla, dois dos criadores do Skype, é cotada para se tornar um unicórnio em breve – a empresa tem operação na Estônia e sede em São Francisco, nos Estados Unidos. A língua inglesa, vale dizer, é bem disseminada no país europeu. Em paralelo ao setor privado, o governo da Estônia se digitalizou. A primeira assinatura eletrônica foi registrada em 2002, e o sistema adotado pelo país hoje é aceito em toda a União Europeia. Em 2008, quando o blockchain estava longe de ganhar popularidade, a tecnologia passou a ser usada para garantir a integridade dos dados do governo e dos cidadãos. Hoje, 99% dos serviços públicos estão disponíveis online. Só não é possível se casar ou se divorciar pela internet. “Eu acredito que a primeira startup estoniana foi o e-government [governo digital]”, diz Kaidi Ruusalepp, fundadora e CEO da plataforma de investimentos Funderbeam e presidente da Estonian Founders Society. Além da digitalização, outro importante fator de estímulo ao empreendedorismo no país é o seu sistema tributário, considerado o mais competitivo entre os membros da OCDE por oito anos consecutivos, de acordo com o International Tax Competitiveness Index (ITCI), elaborado pela Tax Foundation. Entre os fatores que levaram à classificação, o mais relevante, segundo o ranking, é a taxa de imposto de 20% sobre o rendimento das empresas, aplicada apenas aos lucros distribuídos. Na prática, isso significa que os valores reinvestidos no negócio não sofrem tributação. PORTA PARA A EUROPA Como toda nação, a Estônia tem suas desvantagens. O tamanho limitado do mercado local é uma das principais, motivando muitas startups a já nascerem com planos de internacionalização. Em busca de capital estrangeiro, alguns estonianos também optam por estabelecer empresas em outros mercados. Junto com o tamanho reduzido da população, com cerca de 670 mil pessoas economicamente ativas, esses fatores exigiram que o governo buscasse outras formas de elevar a arrecadação de impostos. “Para aumentar o lucro de uma empresa, você pode reduzir os custos ou aumentar as receitas. Então, como poderíamos aumentar as receitas do país?”, pensou Taavi Kotka, empreendedor serial que deixou o setor privado para “estrear” o cargo de Chief Information Officer (CIO) no Ministério da Economia em 2013. Uma das respostas veio na forma do e-Residency, programa de residência digital lançado no ano seguinte. Por meio dele, cidadãos de outros países podem obter uma identidade digital que os permite abrir e gerir uma empresa na Estônia, de forma remota – passados os trâmites iniciais, que ainda envolvem algumas etapas presenciais (veja quadro ao final desta reportagem). Desde que foi criado, o programa teve a adesão de 93 mil empreendedores de 179 países. Entre eles, há cerca de mil brasileiros. Um levantamento realizado em agosto de 2021 pelo programa e pelo Startup Estonia mostrou que um terço das 1,3 mil startups registradas no país até então tinham e-residents entre seus fundadores. Para empreendedores de países de fora da União Europeia, o principal atrativo é poder acessar esse mercado mais facilmente, com uma empresa europeia “nativa”. “Eu venho de um país de terceiro mundo com muitas restrições e histórico de más práticas no setor bancário. Nunca poderia trabalhar com um banco da Suécia, por exemplo, tendo uma empresa cingalesa”, diz Alagan Mahalingam, fundador e CEO da Rootcode Labs, startup focada em desenvolvimento de software fundada no Sri Lanka, em 2014. A empresa mantém a maior parte dos seus cem funcionários no país de origem, mas também opera nos Estados Unidos e na Estônia – neste último, por meio do e-Residency. “Eu já atendia clientes da Europa [antes de aderir ao programa], mas havia muita fricção. Hoje é mais fácil tocar o negócio e pagar impostos”, diz ele. Além de startups consolidadas, o programa atrai empreendedores e profissionais autônomos interessados em clientes de outros países. É o caso da carioca Michele Garcia, especialista em projetos que utilizam a plataforma de vendas e marketing digital HubSpot. Em 2020, depois de aderir ao e-Residency, ela fundou a Kuninganna. “Quando você vai para o mercado internacional e se apresenta como um freelancer brasileiro, eles nos veem como mão de obra barata. Mas, quando eu comecei a me apresentar como uma empresa com sede na Europa, isso mudou totalmente”, afirma. Na época em que Garcia emitiu sua identidade digital, ela viajou até a Estônia para retirar o documento – um cartão físico –, já que o país fechou sua embaixada no Brasil em 2016. Hoje, porém, há um posto de coleta do e-Residency em São Paulo (SP). “Ainda é difícil fazer tudo online, porque precisamos ver essa pessoa fisicamente para ter certeza de que ela é quem diz ser e capturar sua biometria para evitar que ela emita dois documentos com nomes diferentes”, afirma Lauri Haav, diretor do e-Residency. “Mas estamos vendo como a tecnologia evolui para reduzirmos as etapas presenciais.” OLHAR PARA O FUTURO O programa e-Residency não garante facilidades na aprovação de vistos para viver na Estônia. Mas quem tem uma startup ou planeja abrir uma no país pode solicitar o Startup Visa, voltado a fundadores de empresas inovadoras, escaláveis e de base tecnológica. Para alguns e-residents, como os ucranianos Aleksandr e Natalia Storozhuk, fundadores da PRNEWS.IO, este acabou sendo um segundo passo. A empresa, que atua como um marketplace de conteúdos patrocinados, começou a operar na Ucrânia em 2017. Aleksandr candidatou-se ao programa de residência digital e iniciou a operação na Estônia no ano seguinte. Em 2019, os dois foram aprovados para o Startup Visa e se mudaram para Tallinn. Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro deste ano, ele diz ter perdido boa parte dos negócios nos dois países. Agora, a startup investe em aumentar a presença em outros mercados da Europa e da Ásia. Em paralelo, ajudou parte dos seus cerca de 40 funcionários da Ucrânia a se realocarem em países como Tailândia e Turquia. A própria Estônia enfrentou alguns efeitos do conflito. O fato de o país ter fronteira com a Rússia levantou temores entre investidores. “Começaram a dizer que estamos em uma zona de risco e a perguntar se estávamos lutando”, diz Kaidi Ruusalepp, da Estonian Founders Society. Segundo ela, muitos não sabem que o país faz parte da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – fatores vistos como indicadores de segurança. “Nosso papel como fundadores é promover esse tipo de educação para reduzir riscos”, completa. Para Sven Illing, da Universidade de Tecnologia de Tallinn, porém, o maior efeito provocado pelo conflito foi a mudança no apetite ao risco por parte dos investidores – algo que, em meio ao cenário econômico global, também tem sido sentido em outros mercados. “Algumas empresas foram prejudicadas. Mas o cenário geral ainda é bom, e algumas das principais startups do país estão bem capitalizadas”, diz ele. No primeiro trimestre de 2022, o setor registrou um total de 907 milhões de euros em aportes, segundo dados do Startup Estonia. O número é próximo dos 928 milhões de euros registrados em todo o ano de 2021. E o e-Residency é só um dos trunfos do país. “Os estudantes são encorajados a pensar em como construir modelos de negócio interessantes”, diz Luukas Ilves, atual CIO da Estônia. “Em um grupo de adolescentes talentosos, alguns dirão que querem ser médicos, advogados ou políticos. Mas acho que a proporção que quer criar uma startup e conquistar o mundo por meio de um modelo de negócio é muito maior.” * A jornalista viajou a convite do programa e-Residency

pt-br