Será que eu consigo?

Mesmo após muitas realizações, essa dúvida ainda perseguia a empreendedora Stéphanie Moreira – até o dia em que ela virou a chave e viu que podia ir longe

2022-07-28T07:00:00.0000000Z

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Quem conhece a história da antropóloga potiguar Stéphanie Moreira logo percebe que se trata de um exemplo típico de mulher empreendedora. Mas ela própria demorou muito tempo para se enxergar assim, o que atribui às crenças autolimitantes que ela também avalia como comuns em mulheres negras da periferia. Sua trajetória é marcada por muitas realizações e mudanças. Ela nasceu na pequena São Paulo do Potengi, no Rio Grande do Norte, e ainda na infância morou também em cidades do interior de Amazonas, Rondônia e Bahia, acompanhando as transferências de serviço do pai. Aos 13 anos, junto com a irmã Cláudia Moreira, um ano mais velha, foi morar em Natal, em busca de melhores condições de estudo. Em 2004, entrou na faculdade de ciências sociais e passou a desenvolver múltiplos talentos. Fez mestrado em antropologia social, realizou pesquisas em comunidades quilombolas e depois deu uma pausa de dois anos na vida acadêmica para trabalhar com circo na Argentina. Retornou ao Brasil, trabalhou no Maranhão e em Minas, até se mudar para Salvador para fazer doutorado sobre ancestralidade negra. Na capital baiana, participou da fundação do projeto Flor de Milho Quilombo de Artes, hoje presente também em Natal, para onde ela retornou em 2020. Paralelamente a tudo isso, aprendeu a confeccionar tecidos de argolas metálicas e passou a produzir e vender acessórios de moda com a marca Negro Charme. “Mesmo parindo várias coisas, eu tinha dificuldade de entender a minha potencialidade”, lembra Stéphanie. “As pessoas me diziam que eu era empreendedora e eu nem sabia o que era isso. A chave vira quando a gente começa a trazer para o nível de consciência da nossa capacidade.” No ano passado, Stéphanie participou da primeira edição do Quartzo, um programa de aceleração voltado a empreendedoras negras criado pela BlackRocks Startups em parceria com o Sebrae-RN, o IFC (International Finance Corporation) e o Itaú Mulher Empreendedora. Segundo Luciana Nicola Schneider, sócia e diretora de relações institucionais, sustentabilidade e empreendedorismo do Itaú Unibanco, o programa teve grande repercussão na vida das participantes. “Ficamos felizes em notar o fortalecimento da comunidade, a transformação digital, o desenvolvimento das empreendedoras e o impacto direto em seus negócios”, ela conta. A experiência ajudou Stéphanie a definir um foco capaz de aproveitar os seus múltiplos talentos. No ano passado, ela lançou a Casa AfroPoty, um hub de empreendedorismo negro no ramo da economia criativa. O novo negócio incorporou a marca Negro Charme, que deixou de vender ao público em geral e hoje produz peças exclusivas para orixás. Criada com o propósito de promover a cultura negra do Rio Grande do Norte e desenvolver o potencial de empreendedoras negras, a Casa AfroPoty oferece serviços de criação de conceitos, direção de arte, cursos, palestras e consultoria sobre temas ligados à cultura negra potiguar. Começou apenas com Stéphanie e hoje conta com o trabalho de sete pessoas. Um dos principais projetos, desenvolvido em parceria com o Flor de Milho Quilombo de Artes, é o Festival de Arte Urbana Cores do Beco, que reúne manifestações artísticas e culturais na comunidade do Alto do Monte Belo, na periferia de Natal. A primeira edição, realizada em 2021, teve orçamento de R$ 15 mil. Para a edição deste ano, os organizadores levantaram R$ 50 mil. “Para a próxima, vamos captar R$ 150 mil”, conta uma Stéphanie hoje muito mais confiante. “Agora, não me pergunto mais se eu consigo, mas como eu vou conseguir. Porque hoje eu sei que eu posso.”

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