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ANA FONTES

Com a Rede Mulher Empreendedora, ela já impactou centenas de milhares de mulheres à frente de negócios e diz que o caminho para a transformação social é o das políticas públicas

TEXTO SHAGALY FERREIRA FOTO PC PEREIRA

Ana Fontes começou a RME (Rede Mulher Empreendedora) de forma despretensiosa, quando compartilhava em um blog o que aprendia em um programa de capacitação para donas de pequenos negócios. A iniciativa, que tem 13 anos, oferece hoje informação, mentoria, capacitação e recursos. O ecossistema de incentivo ao empreendedorismo feminino conquistou grandes marcas e recebeu aportes de Google e Itaú. Mesmo com essas credenciais, Fontes não acredita que vá mudar o mundo. O caminho para a transformação social, diz, é o das políticas públicas, para o qual ela contribui participando do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do governo federal. Isso porque, segundo ela, o empreendedorismo no Brasil tem raça e gênero definidos: “São mulheres e pessoas negras. A maioria vende o almoço para comprar a janta”. E questiona: “Cadê a linha de crédito para MEI?”. A PEGN a empreendedora revela as ofensas que recebe por redes sociais: “Me chamam de gorda, velha”. Mas isso não a intimida: “Quero estar cada vez mais fora das minhas bolhas”. Não à toa, mostrar que existe um caminho sustentável, diverso e inclusivo tem sido a sua batalha.

Você migrou ainda criança com sua família de Alagoas para São Paulo. Como foram essa transição e os primeiros anos aqui?

Foram meio doídos. Não lembro de muita coisa, mas ouvi meu pai e minha mãe falarem que foi durante um dos maiores frios que teve em São Paulo, em abril de 1970. A gente morou em Diadema [na Grande São Paulo].

Lá[ em Alagoas,] meu pai era pescador, e minha mãe, agricultora. Eles tinham uma plantaçãozinha. Meu pai veio na frente com os meus dois irmãos mais velhos. Minha mãe veio dois meses depois com os seis filhos mais novos, inclusive eu.

Meu pai trabalhava em uma fábrica de conexões, e minha mãe era costureira. A gente passou todas as necessidades possíveis e imagináveis. Trabalhei olhando criança do vizinho, ajudando vizinha a buscar compras.

E os estudos?

Meus irmãos mais velhos foram largando os estudos, porque não conseguiam conciliar com o trabalho. Minha mãe falava: “Para mudar de vida, a gente precisa estudar”. Ela era semianalfabeta, meu pai também.

Como chegou até a universidade?

Prestei vestibular para comunicação. Achava que pagaria apenas a mensalidade, mas tinha matrícula e mensalidade. Não conseguia pagar os dois. Minha mãe comentou com uma vizinha e ela me emprestou o dinheiro. Às vezes, eu juntava dois meses de salário para pagar a faculdade, porque a prioridade era comer. Eu estava sempre devendo.

Quando iniciou a carreira, como era ser mulher, negra e nordestina no marketing?

bem complicado. Passei todos os perrengues que se possa imaginar. Além de ser mulher, negra e nordestina, eu morava em Diadema, uma das cidades mais violentas do Brasil durante muitos anos. Tinha um diretor que falava – o que é preconceituoso – que eu morava na Faixa de Gaza.

Queria ser trainee e, no RH, falaram: “Você não tem perfil”. Via gente com menos capacidade [sendo trainee] ganhando três vezes mais. De estagiária, fui efetivada como assistente e virei analista. Levei dez anos para conseguir a carreira executiva que um trainee alcançava em dois.

Foram quase duas décadas nessa carreira. Por que decidiu sair?

Sofri de forma muito clara o [preconceito pelo] fato de ser mulher. Estava concorrendo a uma vaga de executiva. Na entrevista com o diretor, ele falou: “Seu desempenho aqui na empresa é perfeito. Pena que você é mulher. Para essa vaga eu quero um homem, alguém que bata na mesa, que fale grosso e que faça os funcionários fazerem as coisas”. Eu sofria muito racismo e machismo. Mas foi a primeira vez que foi jogado assim [de forma explícita]. Antes, [o “não”] era atribuído a não ter inglês e uma faculdade boa.

Um tempo depois, fui promovida. Estava grávida e havia uma vaga que só eu podia cumprir. Trabalhava com propaganda de varejo e eu era a maior especialista na área. Me promoveram. Aí aconteceu um negócio horrível: combinei que ia ficar quatro meses de licença-maternidade, e 20 dias depois [do nascimento da criança] ele começou a me pressionar para voltar. Voltei com um mês e meio.

Nessa época você já começou a repensar a carreira?

Fiquei mais cinco anos. Em 2007, tomei a decisão de sair. Oito meses depois, eu tinha 40 anos, passei em um processo seletivo bizarro, com várias coisas discriminatórias, e fui selecionada para ser gerente de marketing.

Avisei que estava na fila de adoção da minha segunda filha. Eu entrei em 18 de agosto, e no dia 16 de outubro me ligaram do fórum para avisar que tinha chegado a minha vez. No dia seguinte, fui para o escritório e o clima tinha mudado, as pessoas me tratando friamente. Uma mulher do jurídico falou: “Descobriram que, como a sua filha tem 10 meses, você vai ter que sair de licença-maternidade”.

Quando o diretor veio conversar comigo sobre isso, eu ria e falava: “Gente, eu vou cuidar da minha filha, é um momento muito especial e vocês podem me mandar embora!”. Tirei a licença e fui demitida na volta.

Quando você criou a RME onde pretendia chegar?

Comecei a empreender antes da RME. Tive uma plataforma de recomendações positivas, a Elogia Aqui, que criei com dois sócios – e deu muito errado. No meio do erro, fui selecionada para o 10.000 Mulheres, da Fundação Getulio Vargas [projeto do banco Goldman Sachs e da Goldman Sachs Foundation que proporcionou, com instituições de ensino parceiras, educação em administração e gestão de negócios a empreendedoras]. Foi a mudança de rota para mim.

Dentro do programa, vi que estava empreendendo, mas não da melhor forma. Descobri que tinha um monte de mulher que também passava tantos perrengues quanto eu. A RME eu criei como um blog. Comecei a escrever sobre o que eu aprendi nas aulas e chamei de Rede Mulher Empreendedora. Era para ajudar quem não tinha passado no programa – se inscreveram mais de mil mulheres, e a turma era de 35. Conheci um monte delas durante o processo seletivo.

Perguntei para o coordenador se podia transmitir com as minhas paEra

lavras o que eu aprendia na aula. Ele permitiu, pegou o meu blog e mandou para o mailing das mil que não passaram. A partir dali, viralizou.

Você poderia traçar uma linha do tempo com os principais marcos da história da RME?

O lançamento do blog foi bem importante. O primeiro boom foi orgânico: as mil mulheres que recebiam o conteúdo foram passando para outras. Em seis meses, tinha 100 mil assinaturas. No segundo ano, com a distribuição pelo Facebook, esse número subiu para 300 mil mulheres.

Outro marco foi quando o Sebrae de São Paulo entrou em contato. Eles me deram espaço para eu fazer os encontros, em 2011. No final de 2012, eu tive o primeiro cliente pago da RME. Comecei a trabalhar para o Itaú Mulher Empreendedora, e isso deu fôlego para investir na Rede.

Outro salto gigantesco foi a entrada do Google, em 2016 e 2017. Recebemos o primeiro milhão de dólares em doação deles em 2018. Isso deu uma chancela e atraiu outras empresas.

O que ajudou muito também foi ter trabalhado em uma grande empresa [na Volkswagen, por 18 anos]. Hoje, sou convidada para falar de captação de recursos e falo sobre reputação, porque o que a gente vende é credibilidade. Temos auditoria desde 2018, buscamos certificações. Para o ambiente corporativo, que é quem nos financia, é importante.

O empreendedorismo no Brasil tem cor e gênero definidos?

Tem raça e tem gênero. O empreendedorismo, em geral, são mulheres e pessoas negras. As pessoas glamourizam – as startups são zero vírgula alguma coisa. A maior parte vende o almoço para comprar a janta, não tem empregados, são microempreendedores individuais ou informais.

Aqui na Rede, quase 16% das mulheres são informais. Obviamente, a gente incentiva que elas sejam MEI, mas, às vezes, nem isso elas conseguem fazer. Então, o empreendedorismo no Brasil é de sobrevivência. A maioria não tem acesso a capital, a crédito, não consegue empregar. Parece paradoxal porque, dos empregos no Brasil, mais de 60% são gerados pelos pequenos negócios, mas não é a maioria dos pequenos negócios que gera emprego.

As pesquisas sobre empreendedorismo olham muito para o negócio formal, não considerando quem trabalha por conta própria?

Tem um monte de MEI que é [entregador] de aplicativo. Mesmo que não seja MEI, tem a lógica de não receber dinheiro de forma fixa e não ser coberto por proteção social. No Brasil, a gente criou um modelo de glamourização do empreendedorismo para precarizar o trabalho. Você vê um monte de gente devendo no cheque especial porque tá empreendendo desse jeito.

Quanto aos desafios que você observava mais de dez anos atrás, principalmente com o recorte de empreendedorismo negro, houve mudança?

Não vejo tanta mudança. Vejo, sim, uma movimentação para formalizar. Quando você é um MEI, tem direito à licença-maternidade – é um horror para tirar e ninguém fala sobre isso – de um salário mínimo, ou seja, se você tira no seu negócio R$ 3 mil ou R$ 4 mil, vai receber mil e poucos reais [referentes ao salário-maternidade, desde que, como MEI, tenha contribuído por no mínimo dez meses, entre outras regras]. O que eu mais ouço é que elas não tiram licença-maternidade porque [se tirarem] não pagam as contas.

Hoje tem mais consciência, mas não é a ação. Cadê a linha de crédito para MEI? Cadê alternativas para essa formalização? Podia haver um programa gigantesco de inclusão e formalização de forma mais simplificada ainda.

Falta, de verdade, uma política mais firme, não só de linha de crédito. A gente faz, na Rede, há quatro anos, microdoações – variam de R$ 1 mil a R$ 10 mil. A gente repassou quase R$ 40 milhões. Depois que [a empreendedora] recebeu o dinheiro, ela compra fogão, geladeira, matéria-prima para fazer o produto dela, e isso faz a diferença.

Quais métricas são empregadas na RME para avaliar o sucesso das empreendedoras atendidas?

Tem o momento zero, quando ela não entrou no programa ou entrou e não fez nada. Seis meses depois, a gente avalia se formalizou, se aumentou o faturamento, a autodeclaração de confiança e a empregabilidade.

A gente fez uma pesquisa no ano passado. Os dados de impacto de doação são chocantes. Por que o governo não pode fazer isso? Tem programa que começa com 20 mil mulheres e faz doação para cem, pois não tem condição de fazer para todas. A gente muda o empreendedorismo quando dá perspectiva e condição. Hoje a gente não dá política pública de acesso a capital, a mercado.

Como tem sido o diálogo com o governo federal no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão?

Tem sido aberto. É muito importante, porque, no governo anterior, a gente não tinha diálogo. As pessoas estão

bem intencionadas. Só que fazer política é um processo difícil.

No Conselhão participam 246 pessoas, desde CEOs de empresas até líderes de movimentos sociais. Conciliar essas várias visões é um exercício interessante, minimamente falando.

O que tem sido muito bacana é que a gente se divide em grupos e discute o que pode fazer. Hoje, por exemplo, está se discutindo no grupo de combate à desigualdade quais são as políticas imediatas, como compras inclusivas, acesso a capital e microdoações.

Você integra também alguns conselhos de empresas privadas. Consegue atuar nesses lugares de forma mais assertiva?

Consigo. Tem sido interessante, porque mostrar para as empresas que existe um caminho sustentável, diverso e inclusivo tem sido minha batalha a vida inteira.

Você se posiciona nas redes sociais sobre diversos temas: política, machismo, homofobia… Como é se fazer ouvida nesses espaços?

Olha, eu tenho muitos haters! [risos]

Você fica incomodada com isso?

Já fiquei mais, porque os haters não atacam a sua posição, eles atacam a sua aparência. Tenho vários prints me chamando de gorda, velha, feia, que meu cabelo é ridículo. Dificilmente bloqueio, só se ameaçam.

Então você já recebeu ameaças?

[Recebi] ameaças do tipo: “Quero que suas filhas morram”, “vou descobrir onde você mora”. Esses [usuários ]eu bloqueio. Com a maioria, consigo estabelecer o diálogo, mesmo que seja difícil, porque a gente vive em um país polarizado – as pessoas não querem ouvir ninguém.

Prefiro mesmo que as pessoas pensem diferente e tentem dialogar. Toda vez que tenho posições mais assertivas em relação a questões políticas ou sociais, perco seguidores.

Isso intimida?

Não. Quero estar cada vez mais fora das minhas bolhas. Se eu falar sempre para as pessoas que acham tudo que eu falo legal, eu não estou conseguindo furar a bolha.

Como você se mantém em paz?

Sou uma mulher canceriana, que chora por tudo. Quero ajudar todo mundo, salvar o planeta, e tenho que trabalhar minha saúde mental para entender que eu não consigo fazer tudo.

Recebo dezenas de mensagens de pessoas pedindo comida, e isso é uma das coisas que mais me matam. Tenho que respirar bem fundo e lembrar para mim mesma [que já ajudo outras pessoas], e, claro, fazer terapia e coisas alternativas também.

Nem sempre estou 100% bem. Às vezes, tenho que me recolher.

Você falou sobre os ataques em relação a aparência. Aos 57 anos, você já precisou lidar com o etarismo?

Um monte! Quando eles me xingam, me chamam de gorda, velha – e sempre em relação ao meu cabelo.

E no ambiente profissional?

Não. Tem situações subliminares. Não são explícitas.

O racismo é o que ainda está mais presente?

O racismo é mais presente do que o etarismo – o racismo e o machismo.

O que é necessário para que mais mulheres negras alcancem espaços de poder?

Intencionalidade. Parece uma palavra boba, mas o que eu mais escuto das empresas é que não acham mulheres negras boas – aí eu mando uma lista com umas 40.

Eu fazia um trabalho de bastidores, que nunca contei. Via todos os eventos maiores e mandava mensagem para os organizadores: “Olha, o seu evento tem 90% de homens brancos, não tem mulheres, pessoas negras”. A maioria me respondia falando que não achava [esses profissionais]. Tem sim. É só buscar e, de forma intencional, achar as pessoas.

Qual o legado que você gostaria de deixar para suas filhas e para as mulheres empreendedoras que apoia?

Queria que elas conseguissem viver de verdade. Queria que minhas filhas andassem na rua sem ter medo. O Brasil é um país extremamente violento para as mulheres, e quanto mais marcadores sociais, mais violento: com negras, com trans…

Queria que a Rede Mulher Empreendedora existisse não para colocar coisas óbvias para a sociedade, mas como um espaço só de conexão. Tenho uma visão diferente da maioria dos empreendedores sociais, porque não acredito em heroísmo individual, acho isso um caminho muito perigoso. Em um país como o nosso, a gente só muda com políticas públicas.

Entendo meu papel, acredito no que faço, batalho para ajudar milhares de mulheres. Mas não tenho a ilusão de que o meu trabalho vai mudar o país. Se a gente não empurrar política pública, a gente não muda o jogo. Quero sair desse território do heroísmo individual, de que os empreendedores sociais vão resolver a fome, o machismo… Não vão.

SUMÁRIO

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2023-11-03T07:00:00.0000000Z

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